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29/01/2006 16:07
Em uma contração do rosto, quase choro, veio toda a dor que nem mesmo conhecia. Como um instante errado, um engano, passou. Foi pra cozinha minúscula fumar em silêncio, junto à janela. Em meio aos pratos sujos e moscas-de-fruta, fogão engordurado e tantos restos, pensava agora no que fazer. Nada, nada lhe ocorria. Bem, já estava tudo feito, e não ia querer ver a surra que ia levar se tentasse aparecer lá de novo.
Agora... Agora só restava esperar o tão esperado dia seguinte, aquele em que ia ser tudo diferente.
enviada por paulelena
18/01/2006 19:45
Tudo o que sobrou de você: uma foto antiga e uma casa vazia. E eu sobrei também, inteira. Não deixei que você levasse nada e agora me arrependo. Sinto-me tão inteira...
enviada por paulelena
16/12/2005 15:30
Nem sei de que morte morreu
E eu o perdi em sonho.
enviada por paulelena
10/11/2005 12:22
é tão violento
as palavras fermentam na minha boca
e quando enfim te posso dizê-las
elas fogem, desnecessárias
enviada por paulelena
20/05/2005 17:19
AMOR PLATÔNICO
Vermelho
Vermelho intenso
Perdido na brancura
Meu beijo impuro
Em tua tímida
Face pálida
(1992)
enviada por paulelena
19/05/2005 14:38
Menino que tem veneno na língua, que é pai de todos os venenos, porque não é do veneno que arde, mas do que acalma.
enviada por paulelena
13/05/2005 20:44
Convalesço lentamente, aos poucos vou me recuperando. Já consigo sentar na cama, apoiada por travesseiros, hoje de manhã dei alguns passos. Meus dias e noites são brancos, suavemente brancos e transcorrem em velocidade regular. Não sei o que dizer, mas já passaram as piores convulsões. Queria chamar por um nome bonito,chamar de amor. Soa bonito padecer de amor. Amor tão lírico, mas dele não se sofre. Amor é uma coisa boa, não é isso. Quis chamar de saudade, saudade tua? Saudade de ti, terceira pessoa do que eu escrevo sem leitor. Saudade que traz o conforto de seu objeto, merecedor de saudade e sempre a esperança do possível remédio. Queria chamar de amor ou saudade, fingir que é falta sua, até te procurei anteontem como uma mão que eu pudesse segurar, mão vacilante como a minha... Não te achei, e se pareceu tanto com uma das piores convulsões, que foi tão fácil explicar assim, saudade. Tenho medo e desconfio que tua presença não possa trazer algum tipo de cura ou saúde, desconfio... Me afasto, platonizo, segura na tua terna recusa. Queria estar ao menos sofrendo de amor, sofrimento doce quase prazer, queria que fossem só saudades de um bem passado. Tão simples... Saudade e seu objeto. Mas não tenho o conforto do objeto que falta, é só a falta. Não há objeto para a ausência, é a simples ausência. É a saudade de um si mesmo que nunca voltará a ser, não da coisa amada, mas pela perda resultante de um prolongado sofrimento.
enviada por paulelena
28/04/2005 15:17
A distância dos teus olhos
Até a tua boca
Uma eternidade perfeita
enviada por paulelena
25/04/2005 23:45
Carta de amor reutilizável
Meu amor é sobrenatural. Como se amasse um morto. Grito para dentro, e grito muito. Para ver se me ouves. Precisar não preciso mas meu corpo te pede em gritos roucos. Quero ter de novo o que tive. Porque nunca um amor foi tão verdadeiro. Nunca alguém amou tanto o que eu era, e me viu por dentro através da pele, nunca ninguém tinha olhado assim na minha alma. Nunca ninguém tinha me tocado tão desprotegida. Nem com tanta cumplicidade. Nunca ninguém me foi tanto assim, e tanto eu te era. Que eu queria ter perpetuado o instante, e me dói pensar que talvez nossa fusão fosse grande demais para nós mesmos.
Um dia vou me resolver de verdade contigo. Enquanto isso, chamo, grito, para que dentro de ti, tu me ouças. Como um chamado à esquerda no peito, tremendo ou palpitando com meu nome. Algumas coisas simplesmente são. Outras, ficam ardendo.
E talvez eu negue até o último instante a resposta clara diante de mim. Talvez eu recuse tudo. E grito seu nome aqui dentro. Porque quero ouvir da tua boca, e ver da última vez seus olhos verdes perdidos de mim para sempre. Verde cor de esperança, então espero que a cor verde de novo me venha. Então espero.
Outro virá e será melhor que você, eu me vingo assim, e atiro em você sua rejeição. Sem nem saber que estradas tortas nos separam, me pergunto como estarás vivendo.
Mas esse desejo de ser amada, de ser desejada não é conflito. É normal de ser humano, não é?
E reviver pra te ter de novo, e lembrar, e querer, é tão provável...
Porque tua beleza é única e imprecisa, por que você ser tão próximo. Você me veio ser aqui perto quase me sendo. E me confundiu e me marcou com ferro quente enquanto em você foi de raspão mas já desapareceu resquício. Quem sou eu para saber disso? Preciso olhar nos teus olhos e perscrutar lembrança minha. Você tem? Diz pra mim, você tem aí dentro marca minha? Como esquecer assim tal força. Foi em mim a marca. Pra ti nem arranhar arranhou direito.
Eu e meus gestos vestidos de bondade. E eu é que preciso de ti. Eu é que nunca mais encontrei a tua cor de pele, tua cor de olho, tua textura própria de coisa pura. És próximo, és quase eu, talvez por isso te ame.
Gritar amor não leva a nada, mas nos vão de vida eu escorrego para dentro de ti. Nos domingos a noite eu resvalo para ti.
Mas não te assustes, continuo vivendo. Vai ser vaso de barro que carrego. Um dia deixo à beira do caminho. Um dia tudo encontra seu lugar vago, e mesmo em mim vai ter lugar para te guardar. Enquanto isso eu te carrego. E mesmo que às vezes grite para dentro, ainda vivo e sigo vivendo. Quem sabe teu amor é que me nutre, por enquanto. Não sei o que fazer contigo mas tenho a coragem. E a noção do mais importante ser seguir vivendo. Até que a ordem das coisas no mundo ou a vida, ou até mesmo eu. Uma dessas entidades dê destino adequado
à tua presença
à tua lembrança
a teu amado ser.
enviada por paulelena
13/03/2005 10:14
É uma solidão tal que ninguém me ouve. E ninguém me toca.
Nenhuma estrela no céu. Nem na terra. Sou de madrugada como um grito para dentro, que me fere por dentro os ouvidos. Sou um grito mudo a rasgar a garganta. Sem som, sem palavra. Sou um nada. E sou coisa demais pra caber em mim de madrugada e o mundo dorme em silênciso de morte.
E eu pensar que talvez te acorde, você inquieto e insone dizendo meu nome. Minha força de bruxa não vale nada.
Meu silêncio é música que não se ouve, nota atrás de nota. Minha música é tal organização do silêncio como uma tela em tons de branco.
E eu espero
Pacientemente espero quem me veja e perceba a diferença escandalosamente sutil entre mim e uma tela em branco. Espero aquele que saiba distiguir o branco da tinta do branco da tela, espero aquele com ouvidos para distingüir meus murmúrios mudos da mudez do silêncio.
Espero aquele que saiba me achar no meio do nada no pouco que sou, no meu jeito de ser com delicadeza como se fosse na ponta dos pés. Mas sou aquela que esbarra derrubando os pratos, que queria ser transparente e acabou diamante.
Sou aquela que espera na janela, que ao falar baixo sai gritando.
Que ao amar arranca pedaço
Que ao tocar, sangra.
enviada por paulelena
24/02/2005 16:23
Sentir-se morrer. Morrer seria o suficiente, mas nem isso, ficar morrendo em vida.
Mas amanhã vai ser outro dia
E tenho que prometer não sucumbir
E meu corpo vai estar fraco de alegria...
Amanhã quero acordar como quem nasce.
enviada por paulelena
08/01/2005 19:26
LIVRO DE REENCONTRO
Era tarde entre traças e eu te procurei de novo sim porque dessa vez sabia então foi tão simples eu te pedi de volta com as mãos abertas e você veio.
Poderia não ter vindo mas veio pra mim ainda cheio de dúvidas e entendi em você um medo de me perder quase lisonjeiro
você me dizia coisas.
Foi um reencontro
tão distante mas retomamos a comunicação e retomamos nossos desejos onde eles tinham parado.
Você me recebeu como se abrisse os braços, falamos tanto em nos vermos...
(2000)
enviada por paulelena
06/01/2005 14:50
Penso em você sempre que posso. Religiosamente. E também sonho com você à noite.
Penso eternamente, me pergunto o que eu deveria fazer.
Nada me responde. Não sei o que fazer com isso dentro de mim. Então vou cobrindo com camadas nacaradas pra expulsar de mim isso tudo que sinto, de um jeito que fique bonito pra você.
Te dou uma pérola, é o que te dou agora.
enviada por paulelena
05/01/2005 22:27
A essa hora ninguém vai me erguer nas mãos me afastando da água. Nem eu mesma vou me erguer da água que apodreça infiltrando.
Eu já não era.
Eu já não tinha mais nome, eu tinha fugido de uma coisa que era eu mesma na névoa cor de rosa a noite era chuva de lama me cobria de estrelas me cobria de ácido para arrancar-me a pele eu que não mereço mais nada eu que não tenho mais nada entrego a pele para fazer casaco
Faz casaco da minha pele pra te vestir no Carnaval
Circo no meu sangue
Banquete do meu sangue
Esfrega no chão cruas minhas vísceras espalha tripa no chão o peso carregado de carne mole Eu sou isso se te choca ou te enoja eu sou isso do avesso a carne pra fora eu dou nojo, eu que sou nua sem pudor de me virar do avesso eu sou tripa eu sou sangue eu sou sua
enviada por paulelena
03/01/2005 16:49
Deitados dois corpos nus, dos deuses da noite anterior haviam-se tornado mera carne, nua carne, outra vez desconhecidos, alheios um ao outro, corpos condenados à separação. A fusão impossível, as palavras dispensáveis.
-Tenho que ir.
-Eu também.
Silêncio.
-Tem água?
Tem sim, vou pegar.
Silêncio, tudo estúpido e inútil.
-Me liga. um fio de esperança.
-Claro, ligo sim. E assim termina.
E se repete.
E se repete indefinidamente. Desde que o mundo é mundo.
enviada por paulelena
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